NÃO ERA UMA DESPEDIDA DE VERDADE

Nos despedimos! E não consigo ver isso como uma despedida, mas como um: “Te vejo mais tarde…”, não mais tarde depois que o café esfriar, quando o sol se pôr, te vejo daqui um tempo, onde o ponteiro já deu infinitas voltas pelo relógio.

Nos despedimos fisicamente, mas você não soltou das minhas mãos. Peguei outro caminho, mas ainda consigo te ver olhando para mim. Falei que nunca mais iria olhar para trás, mas então você se faz presente no futuro. Pensei que poderia colocar entre o que tivemos uma rocha firme, para empoeirar o que vivemos, transformar aquilo em cinzas e deixar o vento soprar, até se perder e não existir mais. Só que não importa o caminho que siga, o vento acaba mudando o percurso e nos trazendo novamente. E é justamente por essas circunstâncias que a vida põe a prova que sei que não foi uma despedida, e sim, um: “Até logo”, “Até depois”, “Até breve”.

Des-pedir, despir, deslizar, soltar, deixar ir… De certa maneira são essas palavras que cabem dentro de uma despedida – deixar uma parte da gente em alguém e partir. E não fomos embora, não nos despedimos! Ainda moro dentro de você e você ainda mora dentro de mim.

O café vai esfriar, ainda vai nascer o sol incontáveis vezes, o barco vai regressar ao cais, as flores secas vão cair e nascer de novo, haverá de passar estações, dias e mais dias, meses e meses. A vida vai passar! Inclusive para aqueles que se despediram um dia, os que seguiram caminhos distintos, mas ficaram guardados um no coração do outro. Se despediram porque ás vezes a vida acaba exigindo muito mais do que uma simples volta ao quarteirão, do que sair do trabalho e voltar para a casa, a vida ordena novas estradas para o aprimoramento.

Mas certamente vamos nos encontrar um dia para entender que dentro daquela despedida cabia muito mais que o regresso. Pertencia novos ideais, novas histórias, novas canções, novos gostos. Era um reencontro de duas pessoas conhecidas se reconhecendo, se encontrando dentro do vazio que ficou. Então haverá pôr do sol, haverá café quente, haverá silêncio, e o ponteiro iniciando a sua volta. Haverá nos dois costurando aquele laço que desabrochou na despedida e finalmente se reuniu novamente.